Chegada das Irmãs Franciscanas
da Penitência e Caridade Cristã
ao Rio Grande do Sul - 1872
 
  MADRE ANA MOELLER - Fundadora da Província Brasileira

BIOGRAFIA
 
                 Madre Ana Moeller, fundadora da Província Brasileira da Congregação das Irmãs Franciscanas da Penitência e Caridade Cristã da Terceira Ordem Regular de São Francisco de Assis, nasceu em Hopston, aldeia do norte da Westfália, Alemanha, aos 24 de novembro de 1836.
                Quando idosa gostava de contar episódios da infância, os quais nos dão a conhecer o grande cuidado que dispensaram à educação da pequena Luisa. Duas tias piedosas desempenharam nesse sentido papel importante. Cedo procuraram despertar na sobrinha o gosto pela leitura espiritual. O livro "Exercício da Perfeição Cristã" de Afonso Rodrigues, fazia parte da coleção dos livros postos à sua disposição.
                 Em Luisa ainda não despertara o sentido espiritual; preferia histórias e descobriu o meio de encontrá-las: percorria o índice. Isso, sim, prendia a atenção da leitorazinha.
    
 
 

                Antes de anoitecer, costumavam as tias fazer uma visita na Igreja vizinha. Levavam a sobrinha que ficava bem quietinha em colóquio infantil com Jesus no tabernáculo. Mas as tias prolongavam a devoção e Luisa escapava por uma porta lateral. Sabia estar a mãe ocupada na cozinha, preparando as gostosas panquecas para a ceia. A pequenina gulosa servia-se de antemão e, assim fortificada, voltava à Igreja e esperava com paciência o fim da piedosa visita. As tias não reparavam na falta da sobrinha.
                Entretanto as artes multiplicavam-se e, certo dia, a pequenina travessa foi apresentada ao Sr. Vigário, Barão de Ketteler, terno amigo das crianças. Ouvindo as amargas queixas e o relato de tantas travessuras, olha com bondade para Luisa e, traçando-lhe  o sinal da cruz na testa, profere a sentença: "Ainda há de ser boa menina". Ter-lhe-ia o futuro dado razão?
                Passaram-se anos e certo dia, Luisa chegou-se aos pai com um grande pedido. As Irmãs Franciscanas da penitência e Caridade Cristã, de Heythuysen na Holanda, estabelecidas há alguns anos também na Alemanha, iam abrir em Karthaus, perto de Trevesis, uma casa de retiros. Convidaram Luisa para participar. Na opinião dos pais, a época era de muito serviço em casa e na horta e, justamente agora ausentar-se três dias para rezar. Isso não podiam compreender. No entanto, consentiram.
                Luisa voltou do retiro entusiasmada. Não se cansava de falar nas Irmãs tão afáveis, no recolhimento e na paz vivenciada. Os pais, às vezes, pouco satisfeitos, observavam: "Parece que queres tornar-te freira. Já fala muito em visitas prolongadas à Igreja". Luisa sorria e mudava de assunto. Um dia, porém, depois de muitas investidas, perguntou seriamente:
                 - E se eu quisesse ser Irmã?
                Os grandes olhos azuis da jovem pousaram nos pais, esperando uma resposta.
                 - Então não serás mais nossa filha! - replicou o pai com azedume.
                A mãe falou com irritação em: tolice, falta de juízo e pensava em que diriam as tias e a perda da herança, etc.
                 Luisa nada retoquiu mas, daí em diante, cessaram os cantos alegres que sempre acompanhavam o seu trabalho. Ficou triste e, às vezes, tinha os olhos manejados de lágrimas.
                Depois de algum tempo, veio novamente um convite para o retiro em Freckenhorst.
                Luisa apresentou a carta ao pai em silêncio.
                O pai disse:
                - Podes ir, pois parece que já não gostas da singeleza da casa paterna.
                Luisa sofria, mas calava. Passados dias, lembrou:
                - Amanhã começa o retiro em Freckenhorst. Tenho licença de ir, não é?
                - Poderás ficar logo lá. - Disse a mãe com amargura.
                Coitada! O grande amor à sua filha a tornava assim tão áspera. Muitas vezes a boa senhora sonhara acordada que Luisa havia de ser algo mais do que uma simples dona de casa da campanha. Mas, tornar-se ela religiosa, isto não compreendia. Em tal possibilidade jamais havia pensado.
                 No dia seguinte Luisa partiu para Freckenhorst. Sentia o coração oprimido.
                 - Será que não estou procedendo bem? - Perguntava-se a si mesma. Mas uma força interior a impedia a seguir avante: era o chamado de Deus! Ao mesmo tempo, sentia o impulso de voltar e suplicar aos pais para lhe permitirem esta opção de vida. Todavia resistia heroicamente e, atendendo ao convite de Deus no seu coração, prosseguiu o caminho.
                 Chegou ao Convento Santa Cruz em Freckenhorst. A porteira a introduziu na sala de visitas. Luisa espera e de repente, rompe em soluços e, conta-lhes o seu pesar. Recomendam-lhe falar ao mestre de retiros. Que coicidência singular! O pregador de retiros é justamente o Reverendo Pe. Guilherme Feldhaus S. J. que, mais tarde seria designado pelos seus superiores para a Missão do Brasil, e a cujo convite as Irmãs Franciscanas da Penitência e Caridade Cristã se estabeleceram no Rio Grande do sul.
                 Luisa foi-lhe apresentada. O zeloso sacerdote, exímio mestre da vida espiritual, reconhece nela a vocação religiosa. Tranquiliza-a e restitui-lhe a paz. Se Deus a chama, por que ainda voltar para casa? Talvez nem recebesse o consentimento dos pais. E até quem sabe, se oporiam à sua entrada no convento. Luisa compreende. Faz-se luz em seu coração e com ela, volta a bonança. Em seguida, escreve duas cartas: uma para Karthaus onde as Irmãs Franciscanas tinham o noviciado, e outra aos pais, comunicando-lhes a resolução e pedindo a bênção, como garantia do perdão obtido.
                 Deus lhe exigira o sacrifício! Tão logo chegou a resposta de Karthaus, Luisa, não querendo por mais tempo resistir ao chamamento divino, pôs-se em viagem para lá.
                 Após o período de formação do Postulantado, no dia 08/10/1859 recebeu o hábito religioso e o nome de Irmã Ana. Com a mudança da indumentária é lhe imposto também outro nome, para lembrar o começo de uma nova vida, em Deus e para Deus. A cerimônia litúrgica da vestição termina com a bênção do padre, representante da Igreja. Este ato solene assinala o ingresso canônico da candidata no respectivo noviciado.            
                  Aos 23 de janeiro de 1862, foi admitida à profissão dos Votos Perpétuos, tornando se religiosa. Estava muito feliz. Só uma gota amarga no cálice da alegria: a ausência dos queridos pais, ainda não reconciliados com a resolução da filha que, aliás, amavam muito.
                A jovem professa sai da casa-mãe franciscana para uma casa filial, tomar parte nas obras de apostolado de suas Irmãs. Foi enviada para München-Gladbach, onde tomou conta do almoxerifado do Hospital "Maria Hilf", fundado há sete anos. Irmã Ana sempre ativa, prudente e conscienciosa, revelou-se desde logo uma ecônoma exemplar. Mas esta sua atividade foi interrompida durante a guerra de 1866, quando prestou serviço de samaritana no campo de batalha.
                Com a Superiora Geral e outras companheiras foi distinguida com a "Cruz de Ferro", honrosa condecoração conferida pelo governo alemão aos que se salientaram pelos serviços prestados em favor da Pátria. Sem dúvida, na guerra franco-prussiana de 1870 teria novamente socorrer os feridos, no campo da luta. Mas, no princípio desse ano, havendo as superioras reconhecido o tino administrativo em Irmã Ana, nomearam-na superiora do Hospital de Süchteln, fundado em 1856.
                Agora, voltamos nosso olhar para os pais de Luisa, vejamos as suas disposições dos pais em Hopsten.
                No decorrer dos anos, os pais de Luisa, mudaram de opinião. Reconheceram que a filha, agindo sob o impulso do Espírito Santo, não errara como julgavam tanto tempo, após a primeira dor da separação. Acrescia que filhas de famílias de suas relações não haviam encontrado, na vida conjugal, a felicidade sonhada. Comparado a sorte de Luisa com a delas, chegaram à conclusão: Luisa escolheu a melhor parte. No entanto, ainda restava um espinho pungente: "Se ela não tivesse saído assim, sem despedir-se!"
                Estando as coisas nesse pé, chega-lhes a notícia da nomeação da Irmã Ana para superiora do Hospital de Süchteln. aos olhos do mundo, principalmente aos de pais que amam, a dignidade de um cargo é sempre honrosa. Não é, pois, de estranhar que o pai de Irmã Ana, na roda de amigos pronuncie pela primeira vez o nome da filha ausente, elevada à superior de um Hospital. Os colegas felicitam-no. O pai explica:
                - Além do trabalho no hospital, há que atender uma escola primária, uma aula doméstica e um curso de enfermagem.
               - Deve ser muito habilidosa - diz o vizinho à direita.
               - Ela terá muitas preocupações e trabalhos - diz o da esquerda.
               - Agora, sem dúvida, irás visitá-la? - diz o outro.
               - Vamos ver - responde sorridente o pai, limpando o cachimbo.
               Infelizmente rompe a guerra franco-prussiana de 1870. Que pena! Justamente agora que o pai Moeller se informava como ir de Hopsten a Süchteln.
                A Congregação das Irmãs Franciscanas da Penitência e Caridade Cristã contava, neste tempo, 35 anos de existência abençoada, e nela já despertara o espírito missionário.
                Entrementes, no Hospital em Süchteln, Madre Ana, a nova superiora, encontrou um vasto campo de ação. Além da enfermagem, as Irmãs dirigiram um Jardim de Infância, uma Escola Primária e Média, ensinavam trabalhos manuais e exerciam a enfermagem ambulante.
                 Com o rompimento da gerra, o hospital foi logo mudado em lazareto para os feridos. Madre Ana foi para o campo de batalha, em 1865, conhecera de perto o sofrimento dos pobres soldados; o seu aspecto infundira-lhe o mais profundo pesar. Cheio de zelo e de compaixão para com estes infelizes, foi agora a primeira a dispensar-lhes cuidados. Lavava as feridas, arrumava-lhes o leito, arranjava-lhes a roupa limpa e nova, mandava notícias aos respectivos familiares. Os soldados, sob estes tratamentos carinhosos, logo se sentiram em casa.
                 Certo dia, Madre Ana ouve uma singular saudação:
                 - Bom dia, Luisa - ecoa pela sala.
                 Ela se volta para ver se, talvez, está perto uma auxiliar leiga. De novo repete a mesma voz:
                  - Bom dia, Luisa! Não me conheces mais?
                  Agora não há mais dúvida, a saudação se dirige a ela. Um rapaz barbudo, cujo olhar indica surpresa e alegria, está sentado em uma cama. Foi ele que proferiu as palavras. Madre Ana sente-se um pouco intrigada com isto. Como é que um estranho se atreve a dirigir-se a ela pelo nome do século, e ainda tratá-la pelo "tu" familiar?
                  - Mas, Luisa, já não conheces teu irmão?
                  - Irmão? - retrucou Madre Ana, entre dúvida e surpresa - isto, enfim, cada qual pode dizer.
                   Mas, aproximando-se do leito de quem saudara, reconhece-o: é realmente seu irmão. É fácil imaginar a comoção de ambos, neste primeiro encontro, após mais de 10 anos. Madre Ana no íntimo de seu coração, agradeceu a Deus a alegria que lhe proporcionou, ver, depois de tanto tempo, um membro de sua família e poder dispensar-lhe os seus cuidados.
                   A Alemanha vivia dias de intenso júbilo pela vitória alcançada na guerra contra a França. As religiosas tinham prestado seu auxílio nos campos de batalha, cuidando dos feridos, fazendo juz à gratidão da Pátria. No entanto, o horizonte político carregava-se de densas nuvens, que anunciavam, para breve, terrível tempestade de perseguição contra a Igreja Católica e as Ordens Religiosas. Foi neste momento que chegou do longínquo Brasil o pedido de Irmãs para a obra de educação da juventude feminina. Procedia o pedido do Reverendo Pe. Feldhaus, o mesmo que conduziu Madre Ana ao termo de sua vocação. Ele era pároco de São Leopoldo/RS, para onde chamava as Irmãs. Queria somente duas Irmãs, com traje civil. A superiora não podia anuir ao pedido. Em vista de grande distância, deviam ser, pelo menos, seis Irmãs e revestidas do hábito religioso. Consta que o pároco abatido se aconselhou com piedosas senhoras e que aceitou a proposta de seis Irmãs em traje religioso.
                 A Superiora Provincial, por meio de uma circular, pediu que se apresentassem Irmãs dispostas para o sacrifício de abandonar a pátria, para servir a Deus no Brasil. Mais de cem Irmãs se ofereceram. Madre Ana respondeu como o profeta Isaías: "Senhor, eis-me às ordens, enviai-me".
                 E Deus lhe pôs a mão: ela havia de dirigir a turma. Seria a Primeira Comunidade das Irmãs Franciscanas no Brasil: Madre Ana, Ir. Ludgera, Ir. Teresia, Ir. Alvina, Ir. Florência e Ir. Maria.
                 Agora, voltamos novamente nosso olhar para os pais de Luisa, vejamos o que acontece em Hopsten.
                  Passam os meses. Na família Moeller, em Hopsten, chega uma carta. O pai abre-a e lê. Em silêncio entrega à mãe. Os olhos de ambos se enchem de lágrimas. De quem é a carta? Da filha ausente. Madre Ana comunica aos pais que a Congregação enviaria missionárias para o Brasil e que as Superioras aceitaram o seu oferecimento e a designaram para guiar o grupo de pioneiras. Se os pais consentissem, viria em janeiro dar-lhes o abraço de despedida.
                 Se eles consentissem! Óh! Haveriam de recebê-la de braços abertos! Com o mais cordial carinho, como indenização da longa e saudosa separação.
                 Foram dias de íntima alegria que Madre Ana passou no aconchego da família. A aldeia toda tomou parte da felicidade. Os pais pareciam rejuvenecer. Madre Ana partiu com a bênção dos pais para o campo missionário do Brasil, sua nova Pátria.
                 No dia 12/02/1872, Madre Ana, Ir. Ludgera, Ir. Teresia, Ir. Alvina, Ir. Florência e Ir. Maria partiram de Capellen, Casa Mãe da Alemanha, rumo a São Leopoldo, Brasil.
                 Na longa travessia do Oceano, Madre Ana teve tempo para reviver, em espírito, as impressões dos últimos meses. Contava com 35 anos de vida. Não furtava aos sentimentos da grande responsabilidade que lhe puseram sobre os ombros. Todavia, era filha de Madre Madalena de quem aprendera pôr toda a confiança em Deus e, como São Paulo, repetia: "Tudo posso Naquele que me fortalece!"
                 E a viagem prosseguia. Passam o equador, estranham o calor tropical. Apresenta-se à sua vista a maravilhosa Bahia de Guanabara em toda a sua encantadora beleza. E o "Poitou" lança âncoras no Porto do Rio de Janeiro. As Irmãs da Congregação de São Vicente de Paula vem oferecer hospedagem às humildes filhas de São Francisco de Assis. A demora não será longa: um dia de descanso apenas. Madre Ana aceita agradecida a hospitalidade das caridosas Vicentinas. No dia seguinte deviam embarcar no "Calderon", rumo ao Rio Grande do Sul, mas o dinheiro não chega para as passagens.
                 Um senhor compassivo nota a situação aflitiva das missionárias e espontaneamente supre o que falta para completar o valor das passagens. Madre Ana agradece e lembra-se do Deus Proverá, pois a providência Divina não faltará jamais.
                  Continua a viagem, seguindo pela costa do Brasil. Tudo respira paz e calma. Chega o dia 17 de março. Até aí a viagem corre feliz, sem incidente algum. Mas eis que um choque violento se faz sentir. Parte-se o leme. O vapor está sem governo, não poderá prosseguir.
                   Os passageiros se entreolham assustados. Madre Ana e o seu grupo, porém, recorrem a São José, cuja festa está próxima. Prometem colocar a primeira fundação brasileira sob a proteção de São José. Eis que no dia 19, festa de São José, ouve-se o grito:
                    - Vapor à vista!
                   Os corações se reanimaram. O vapor "Camões", maior que o "Calderon", está na mesma rota, em viagem ao Rio de Janeiro. Acabam retrocedendo a viagem ao Rio de Janeiro. Mas,
que importa? Agradecem a Deus por tê-las preservado do pior.
                   Ali no Rio de Janeiro, Madre Ana novamente aceita com gratidão a hospedagem das bondosas Vicentinas. Permanecem lá, alguns dias, enquanto carga e passageiros são transferidos para o "Camões" que voltará para o Rio Grande do Sul, com destino à cidade de Rio Grande.
                   Novo embarque. Chegam finalmente em Rio Grande. As missionárias fazem nova baldeação. É o "Pedro II" que levará Madre Ana e companheiras para Porto Alegre, seguindo pela Lagoa dos Patos. Chegam na manhã do dia da Páscoa. Foi grande a decepção, pois ninguém está à sua espera. A família que se oferecera a dar a hospedagem às missionárias, já há dias aguardava a sua chegada, mas, sempre em vão.
                    Não demorou e na cidade se falava das missionárias que estavam a bordo de um vapor ancorado no porto. A família que haveria de hospedar as irmãs ficou sabendo e mandou buscá-las. Estas desejavam prosseguir logo para São Leopoldo, mas não era possível porque o vaporzinho que fazia a rota pelo Rio dos Sinos, só partiria na terça-feira. Aceitaram, pois, agradecidas a hospitalidade da gentil família.
                   Embarcam no vaporzinho, no dia 02 de abril, as missionárias fazem a sua última etapa da viagem para São Leopoldo, ponto inicial do seu apostolado.
                   Olham para a cidade que deixam: uma casa grande que domina o panorama, chama-lhes a atenção. Madre Ana pergunta:
                   - Que casa é aquela?
                   - É a Santa Casa de Misericórdia, um hospital - respondem. O pensamento de Madre Ana vai para o futuro.
                   - Para lá irão também as minhas Irmãs! - Diz em tom profético.
                   - Nunca - replicam - lá não querem saber de religiosas.
                    Madre Ana sorri e diz:
                   - Talvez daqui a 20 anos. Para Deus tudo é possível.
                    (Fato curioso e notável, é que depois de 20 anos, as Irmãs foram trabalhar e morar na Santa Casa de Misericórdia, em Porto Alegre. Trabalharam nesta obra, junto aos doentes por vários anos. Ainda hoje, existe um prédio na Santa Casa de Misericórdia, com o nome de Madre Ana, em homenagem ao seu amor e dedicação pelas pessoas.)
                    Na cidade de São Leopoldo, a população, quase em peso, está na rua. O povo aguarda com ansiedade a chegada das religiosass. O vaporzinho vem subindo o rio. Cresce a expectativa. Os sinos da Igreja começam a tocar. Ouve-se, enfim:
                   - Lá vem elas! As educadoras de nossas filhas!
                   O júbilo é grande. Trocam-se saudações cordiais. Todos se dirigem à Matriz, onde ecoam os acordes de um solene "Te Deum Laudamus" em ação de graças. Após, são conduzidas ao seu pequeno convento, uma casa muito simples e pobre.
                    Desta maneira, a Missão Franciscana no Brasil começou mais pobre do que a Obra da fundação da Congregação de Madre Madalena, na campina holandesa.
                    Com o ato litúrgico da bênção da casa, estava, pois fundada a Missão das Irmãs Franciscanas da Penitência e Caridade Cristã, no Brasil e a data - 02 de abril de 1872 - ficará para sempre registrada nos Anais da História da Congregação, como sendo "O dia da fundação da Missão Brasileira".
                    Madre Ana, fiel à promessa que fizera durante a viagem, no no calamitoso trecho do Rio de Janeiro ao Rio Grande do Sul, deu à primeira casa o nome do glorioso patriarca e protetor "São José".
                    A pobreza era extrema, acentuada ainda, pela falta das malas que haviam se extraviado na viagem, nas quais havia material de ensino e muitas outras coisas necessárias para o bom andamento da escola. Madre Ana, porém, de ânimo sempre sereno, consolava as Irmãs, lembrando-se de Madre Madalena.
                   A modestíssima habitação compunha-se de quatro peças, separadas por tabiques e cortinas. Com o auxílio dos bons vizinhos e de outras pessoas amigas, conseguiram arrumar e instalar, embora muito primitivamente, uma sala de aula. O Jardim da Infância funcionaria sob a fronde de uma laranjeira, nos dias bons - naturalmente, e nos dias chuvosos, Deus Providenciará. Tudo, pois, estava pronto para receber as crianças.
                   Então, no dia 05 de abril, terceiro dia depois da vinda das Irmãs, começou a atividade escolar, sob a bênção do Sagrado Coração de Jesus. Vieram 23 crianças no primeiro dia, número que foi crescendo rapidamente: cada dia se apresentavam novas. Era palpável a bênção de Deus que pairava sobre a nova fundação.
                   Não eram ainda passados quinze dias, quando um benfeitor da Escola e grande amigo das Irmãs, o Sr. José Kroeff da vizinha povoação "Hamburgerbeg", apresentou-se com sua esposa e duas filhas, Mathilde e Thecla, respectivamente, de 12 e 14 anos de idade, para interná-las na nova instituição. As Irmãs, nas condições precárias em que viviam, nem sonhavam ainda em aceitar internas. Mas o bom homem não se deixou convencer: pediu para ver a casa. Madre Ana, certa de que não encontraria um cantinho sequer disponível, o guiou. Eis que nos fundos, encostado à casa, dá com um galpão abandonado que servira, anteriormente, de abrigo para as cabras. O Sr. Kroeff está satisfeito. Ele mandou transformar este espaço em dormitório para as duas filhas pensionistas. Eis como principiou o internato do Colégio São José, que tão afamado se tornaria no decorrer dos anos em todo o estado do Rio Grande do Sul e fora dele.
                   Continuava a afluência de alunas. Agora já se tornara possível e até alugar mais uma casa. Mas, dentro de pouco tempo, também isto já não bastava: o número de alunas crescia sempre.
                    Uma vez começado o internato, afluíam alunas de todo o Estado. A falta de lugar tornou-se angustiante. Os novos recursos e, sobretudo os subsídios vindos da Europa permitiram, em 1º de setembro do mesmo ano, a mudança do pequeno Colégio São José para uma casa bem maior. A nova moradia tinha cômodos para várias aulas, dormitórios e refeitórios para as Irmãs e alunas.
                    Em 1874, nova leva de auxiliares do além-mar tornou possível a fundação de uma filial em Santa Cruz do Sul/RS, na zona colonial alemã do estado. Esta fundação realizou-se em 1º de agosto desse mesmo ano. Graças a generosidade dos bons colonos, foi possível dar início à construção de um edifício amplo para acolher alunas internas e externas.
                   Deus abençoava visivelmente o trabalho das Irmãs, acendendo no coração de muitas educandas o espírito do seráfico São Francisco de Assis. A filial de Santa Cruz revelou-se, desde o princípio, um viveiro de vocações religiosas. Sempre mais crescentes e insistentes eram os pedidos de ingresso na Congregação, de modo que foi preciso tomar-se uma decisão. Madre Ana, sempre atenta à voz de Deus, reconheceu nessas circunstâncias ser da vontade Divina, abrir-se ali um noviciado. Sem mais hesitar, deu os devidos passos e no ano seguinte recebeu as cinco primeiras candidatas para a Vida Religiosa Franciscana de nacionalidade brasileira. Foi a primeira solenidade de vestidura realizada na Missão Franciscana da Penitência e Caridade Cristã, no Brasil. Dois anos depois, no dia 20 de junho, Madre Ana presidiu a 1ª festa da Profissão em que quatro noviças brasileiras se ligaram definitivamente à Congregação, pela emissão dos santos votos.
                 Aos poucos Madre Ana, assim como Madre Madalena - a fundadora da Congregação, vendo as necessidades do povo em suas diferentes regiões do Rio Grande do Sul, bem como diferentes culturas e lugares, guiada pela Divina Providência, abriu várias obras e grande parte destas permanecem até hoje. Resumidamente, acompanhemos o início das novas obras fundadas por Madre Ana em solo gaúcho.

                 # 05/04/1872: Fundou a Comunidade do Colégio São José, em São Leopoldo/RS, dando início às aulas.
             
                 # 01/08/1874: Fundou a Comunidade do Colégio Sagrado Coração de Jesus, em Santa Cruz/RS;


                 # 22/06/1876: Fundou o primeiro Noviciado Brasileiro, em santa Cruz do Sul/RS;

                # 06/01/1881: Fundou o Colégio Nossa Senhora dos Anjos, em Porto Alegre/RS (hoje conhecida como Residência Madre Ana);     

                # 21/01/1888: Fundou a Comunidade do Instituto Nossa Senhora da Piedade, em Porto Alegre/RS;

                # 08/09/1888: Fundou a Comunidade do Asilo de Nossa Senhora da Conceição, em Pelotas/RS;
   
                #
16/02/1889: Fundou a Comunidade do Colégio São Francisco de Assis, em Pelotas/RS;

                # 28/02/1905: Fundou a Comunidade do Colégio Sant'Ana, em Santa Maria/RS;

                # 09/03/1905: Fundou a Comunidade do Colégio Espírito Santo, em Bagé/RS;

                # 21/06/1905: Fundou a Comunidade do Colégio Bom Conselho, em Porto Alegre/RS;

                 # 28/07/1906: Fundou a Comunidade da Santa Casa de Caridade, em Bagé/RS;

                 # 01/08/1906: Fundou a Comunidade do Asilo de Mendigos, em Pelotas/RS;

                # 25/03/1908: Fundou a Comunidade da Santa Casa de Caridade, em Jaguarão/RS;

                # 21/05/1908: Fundou a Comunidade do Hospital Santa Cruz, em Santa Cruz do Sul/RS;

                # 01/03/1912: Fundou a Comunidade do Hospital Militar, em Porto Alegre/RS;

                Em 23 de janeiro de 1912, Madre Ana celebrou o Jubileu de sua Profissão Religiosa. Sendo, em 18 de janeiro de 1914, substituída no cargo de Superiora da Missão Brasileira pela Madre Laerta Feuser.
                Em 1914, aos 77 anos de idade, depôs o cargo e ocupou-se com orações e trabalhos pelas Igrejas pobres.
                Em 27 de janeiro de 1928, com 91 anos de idade, Madre Ana Moeller, a fundadora da Província Brasileira das Irmãs Franciscanas da Penitência e Caridade Cristã, faleceu, deixando o seu bonito exemplo e testemunho de vida marcado pelo Deus Proverá.
                Sua vida foi rica em sacrifícios, trabalhos e em virtudes e méritos. Estava compenetrada do espírito de fé, adquirido em suas relações com Deus. Foi fiel nos exercícios da comunidade, enquanto a doença lhe não foi obstáculo. Nada lhe foi poupado em cruzes e sofrimentos, mas nunca se deixou abater. Sua confiança em Deus fez com que suportasse o peso da dor que sempre vencia com humilde resignação. Sem cessar advertia, recomendando confiança e abandono a Deus. Este é o precioso legado que nos deixou.   

 

 
Bibliografia:
-
Biografia da serva de Deus Madre Anna Moeller - Fundadora da Missão Franciscana no Brasil. Escrito por Águeda Francisca.
- Chegada das Irmãs Franciscanas da Penitência e Caridade Cristã ao Rio Grande do Sul - 1872 (Texto retirado do álbum que se encontra no Centro Histórico Cultural da Província do Sagrado Coração de Jesus, localizado no Colégio São José, em São Leopoldo/RS)